sábado, 19 de julho de 2014

You Tá the Brinqueichón?

(Imagem extraída de: http://strategygames.biz/what-is-the-educational-value-of-a-strategy-game/)
É o que diz um Joel Santana indignado quando dá de cara com um rapaz falando um inglês incompreensível, na engraçadíssima propaganda da P&G:

You tá the brinqueichón uite mi cara?

Pra quem não viu a propaganda que só foi vinculada na internet, segue o link:


A propaganda brinca sobre essa tendência das pessoas repetirem expressões em inglês, para se mostrarem conhecedoras de algum assunto do momento. Também nos traz a ideia de que tudo que está atrelado ao uso do inglês, certamente parte de uma perspectiva mais avançada, mais atualizada.

Isso não poderia deixar de acontecer na área que busca os maiores avanços no setor empresarial que é o da inovação.

E lá vem fulano falando sobre o Design Thinking, o Business Design, ações de Futuring e das práticas para geração de startups, como se o inglês avisasse que se trata de coisa nova, fora do comum.

You don´t have ficar por foréichion!!!

De todas as metodologias, que visam trabalhar a inovação, nenhuma tem sido tão disseminada quanto o Business Model Generation, que editora alguma teria a ideia de traduzir para o simplório Geração de Modelo de Negócio.

Talvez você também já tenha ouvido falar, é o bastante conhecido Business Canvas, mencionado por executivos e consultores frequentemente.

Esta metodologia possibilitaria a concepção e a formulação de estratégias inovadoras de negócio, mas não o faz e gostaria de discutir as razões.

Pra quem não conhece, trata-se de um quadro estruturado em nove dimensões ou blocos, que permitiria a análise dos fatores críticos de sucesso de qualquer negócio. De uma fábrica de alta tecnologia a padaria de seu cunhado.


Business Model Generation – Estrutura Básica

O objetivo é o de possibilitar uma análise integrada dos processos e ações de negócio, tendo como foco a busca pela diferenciação e inovação.

A ideia central do Business Model é entendermos que a diferenciação junto ao cliente, surgiria da integração sinérgica entre produtos, serviços e processos, gerando barreiras de aprendizado em relação a concorrência.

A concepção é bastante inspirada na integração do modelo de negócio da Apple, principalmente pela referência da plataforma Ipod/Itunes. A Nespresso com suas cafeteiras, lojas e serviços online e os serviços de comunicação oferecidos pelo skype, seriam outros exemplos.

De fato, a junção da tecnologia interativa em produtos e serviços gera uma experiência única de atendimento. Isso tem levado muitas empresas a novos patamares de relacionamento com seus clientes.

Mas, no fundo, o que os autores propuseram foi uma substituição das atuais referências para a formulação da estratégia por um conjunto mais detalhado e atualizado. O pensar e o criar viria de uma associação destas referências, o que simplificaria e daria um sentido de organização ao processo.

Mas isso é muito diferente de trabalharmos com princípios que envolvem a geração e a criatividade, pois nos afastamos das noções centrais de movimento e simultaneidade de aprendizado na experiência de criação.

Os autores creem que encontraram princípios impulsionadores da descoberta e criação, nos principais elementos descritivos retirados dos exemplos de inovação em modelos de negócio. Nesse sentido, a consideração do modelo em seu conjunto, seria o fator preponderante para guiar o processo ideativo.

That´s good, ou melhor dizendo, that´s guuuudi!

Nem tanto, diria eu, e talvez o Joel Santana.

Os problemas estão relacionados tanto aos princípios que balizam o modelo quanto à insuficiência de resultados decorrente da aplicação prática.

Isso porque, esse framework tem como ponto de partida o visual thinking, que por sua vez reflete uma tendência bastante atual de valorização do design (olha o Joel Santana de novo!).

O visual thinking enfatiza um tipo de padrão de pensamento, que se orienta no registro das coisas que compõem a realidade a nossa volta, como se concretizássemos numa folha de papel nossa percepção e todas as associações de ideias em torno destas percepções.

Busca com isso deixar aflorar a intuição de forma que surjam novas conexões e padrões de pensamento de forma livre e desimpedida.

Mas, segundo pesquisas que venho trabalhando sobre a cognição humana, a nossa inteligência também opera, concomitantemente, correlacionando e gerando novos esquemas de entendimento, que por sua vez reorientam a percepção.

É o caso de olharmos um remo “quebrado” dentro da água e entendermos que na verdade a imagem registrada decorre do fenômeno de refração dos raios. Ninguém se confundiria com isso, pois trazemos conosco a explicação do porque isso ocorre. Entendimento e percepção andam juntos.

Nesse sentido as intelecções se libertam da constatação concreta e passam a “subir” para patamares novos, possibilitando a emergência de novas questões e de novas proposições. Os pensamentos vão sendo reinterpretados em novas dinâmicas, que associam imagens e conteúdos de forma muito diversa, se desdobrando por fim em nova compreensão sobre a realidade.

Aqui precisamos entender que o dinamismo da inteligência também influencia as constatações que surgirão no futuro, quando uma sucessão de pensamentos e reflexões encadeadas, terão condições de reverter os padrões adotados no presente.

Portanto, o Business Model se limita a um tipo de representação, que considera elementos gerais de uma descrição. É um modelo de fato, nem mais nem menos que isso.

Não traduz o dinamismo que envolve a descoberta. Também não abarca a complexidade da criação, que movimenta nossa percepção para outros patamares. Não fundamenta os juízos de valor de novas decisões, pois esses só decorrem de um processo de afirmação e compreensão de nossa consciência frente a uma nova experiência.

Principalmente falha na apreensão de novos padrões da realidade que estão além do universo organizacional, que possibilitariam captar em forma de insights novas tendências em desenvolvimento no mercado.

Sei que falando assim, pareço estar me distanciando da realidade do mundo dos negócios.
Na verdade acredito justamente no contrário. O jeitão de ser do mundo dos negócios é que fez com que as metodologias cada vez mais se aperfeiçoassem de forma a moldar os seus princípios de funcionamento a algo reconhecível por parte dos executivos.

A questão é que quando os acadêmicos e consultores restringirem o seu campo de pesquisa e entendimento para facilitar a comunicação junto ao seu público alvo, os executivos, acabam também por restringir seu acesso às teorias que explicam a dinâmica do pensar e do criar.


Passaram então a conceber métodos que abarcassem a complexidade a partir de descrições baseadas em generalizações de senso comum, do que acreditavam ser a melhor descrição da realidade destes executivos.
Evidentemente isso trouxe um impacto enorme, principalmente quando essas ferramentas prometem uma resposta nova frente a novos dilemas, mas na quase totalidade das vezes, sem resultados significativos.

Na minha experiência pessoal, utilizando essa metodologia, tive a nítida impressão que seguindo as sugestões das questões destacadas em cada bloco, as equipes passavam a adotar pensamentos padronizados para responder estas mesmas questões. Com isso, acabava por levar a um tipo de pensamento que incorporava padrões vigentes no momento de formulação da estratégia ao invés de redefini-los.

Pela sensação de clareza, integração do conjunto e um rol mais ou menos detalhado de questões, esse método parece ter caído nas graças dos executivos. Para mim, entretanto é mais uma promessa de solução simples para problemas complexos.

Mas isso vale para todas as metodologias que se baseiam em esquemas descritivos da realidade, sejam elas futuristas, desenvolvimentistas ou criativas, pois procuram sempre gerar e aprofundar o aprendizado a partir de estruturas pré-determinadas.


 Do you uondersténdi?


Marcelo Alessandro Fernandes é Engenheiro de Produção pela UFSC. Pesquisador das áreas de Imaginação, Cognição Criativa e Psicodrama. Possui Mestrado em Inovação também pela UFSC e formação em Psicodrama e Sociodrama pela ABPS. É membro do Comitê Executivo da Cátedra Ozires Silva de Empreendedorismo e Inovação Sustentáveis. (e-mail de contato: marceloalessandro@gmail.com)


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quinta-feira, 17 de julho de 2014

Achiles Batista Ferreira Jr entrevista Marcelo Fernandes



Nosso companheiro de Cátedra, o engenheiro e pesquisador das áreas de Imaginação, Cognição Criativa e Psicodrama, Marcelo Alessandro Fernandes em entrevista de Achiles Batista para TV Uninter. 

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quinta-feira, 10 de julho de 2014

O Empreendedorismo Cívico de José Monir Nasser.

(“Economia do Mais – Coisas que você não ouvirá de nenhum outro economista - de José Monir Nasse 
Tríade Editora, 2003)”

Uma das razões da existência da Cátedra Ozires Silva é constituir-se em um espaço de construção de conhecimento para o empreendedorismo cujo patrono, inspirador e homenageado, Sr. Ozires Silva, defende apaixonadamente.

Para nossos caros amigos da Cátedra, gostaria de contar um pouco aqui do que se trata esse livro estupendo, e o quanto é bom trocar ideias sobre o que escreveu o memorável economista paranaense José Monir Nasser (1953-2013).

Como ele próprio definiu Economia do Mais – Coisas que você não ouvirá de nenhum outro economista é um livro incomum, um livro de advertências, “foi feito para provocar e não para teorizar”. Recolhimento das transcrições das 12 palestras presididas pelo economista e restaurador cultural José Monir Nasser, realizadas no I Curso Paranaense de Desenvolvimento Contemporâneo, entre 2001 e 2002 no Instituto Paraná Desenvolvimento (IPD).  

A começar pelo o que se entende de economia, Monir adverte que ficamos “desbussolados” por força de diferentes abordagens e modismos e aí vamos perdemos os fundamentos das coisas: “a economia é um conjunto de ações organizadas para produzir os meios materiais de sobrevivência humana. Qualquer acréscimo à ciência econômica deveria pautar-se nas novas maneiras de se obter esses meios”.

Empreendedorismo Cívico

Dos doze capítulos do livro, quatro discorrem sobre o que o autor define como “empreendedorismo cívico”, um empreendedorismo que longe da utopia, é real e factível. Nasser quer introduzir o leitor ao o que ele chama de nova competitividade de pequeno âmbito, uma progressiva possibilidade de organização econômica e um novo tipo de intervenção a que ele chama de empreendedorismo cívico, ou seja, um processo fruto de interações sociais repetidas para desenvolver os indivíduos capazes de produz capital social baseado nas identidades da sociedade, sob forma de valores. O capital social aqui tem o sentido amplo de compartilhar coisas comuns, seja um destino, um mito fundador ou uma profecia escatológica a que ele chama de civismo. Monir retoma Ortega y: “sociedade é o que se produz automaticamente pelo simples fato da convivência”. Monir é perseverante quanto ao argumento de que o Estado, as relações jurídicas e o mundo civil vem depois e que em qualquer sociedade há poder, mesmo antes de haver governo! Ou seja, grandes discussões! Discussões que mais vale discutir, ampliar, repensar, comparar, atenuar, contextualizar, ao invés de comodamente tomar a maniqueísta atitude do “só vale se for certo ou do errado”, do “concordo ou discordo”, diante de qualquer coisa.

Quando abrimos a consciência e nos libertamos um pouco do senso comum, esse livro se transforma em um exercício intelectual! Esteja pronto para recategorizar coisas nas quais acreditava!

Monir conta que a expressão “empreendedorismo cívico” foi usada pela primeira vez no processo de revitalização do Vale do Silício, quando seus executores publicaram um relatório de recomendações voltadas a processos de tomada de ação. Eles perceberam que não se pode criar identidade onde ela já não existe.

Outra conclusão é que o empreendedor cívico terá que começar onde pelo menos houver farrapos de identidade, onde puder promover a interatividade, onde ele pode escrever um enredo possível, no sentido de adequar ao o que é factível, a partir dos recursos que já se tem.

Ao mostrar exemplos, ele fala da região da Emilia-Romagna na Itália, e apresenta como a região foi capaz de tornar os envolvidos em um projeto comum mais competentes, o que se tornou o segredo da competitividade da região, ou como as interações fizeram com que a província basca de Mondragón tivesse expulsado do ambiente social a ganância, a vaidade e a dominação. Mesmo que talvez acreditemos que isso não seja tão plausível assim em contextos nacionais, é interessante ir a fundo a histórias da região da Emília-Romana e de Mondragón para sentir o quanto além de verossímeis, são possíveis! Não há modelos a seguir,  talvez essas experiências sejam irreproduzíveis, tais as suas especificidades...Tive a oportunidade de fazer esse exercício para minha dissertação de mestrado  quando estudava as interações que fizeram a potência do Arranjo Produtivo Local (APL) de Software de Pato Branco e região. Lá, acabamos por verificar, dentro de uma ótica de análise histórica e também a partir da abordagem institucional da economia, uma série de sinais de uma sociedade que soube, apesar das dificuldades, se desvencilhar do “descontinuismo político” em prol de um projeto comum para a cidade, o de se tornar referência no setor no Paraná. Academia, governo local e sociedade se juntaram as mãos pela sustentabilidade do projeto. Hoje a região é reconhecida e procurada por grandes investidores e interessados em aprender como avançaram institucionalmente o que resultou em uma aglomeração produtiva e inovadora na produção de tecnologia.

“O empreendedor cívico não quer mudar o mundo pois sabe que essa pretensão beira ao delírio!”. A assertividade de Monir é desconcertante: “sabe-se prisioneiro da identidade que só existe no pequeno âmbito. Não pode ultrapassar o pequeno âmbito, porque não pode atuar num vácuo de identidade: sem identidade não há confiança”.  E assim ele segue entre exemplos e em uma leitura divertida, rica e profunda ao mesmo tempo.

Comunidades de Desenvolvimento: mais Embraeres para o Brasil

Para explicar qualquer coisa, Monir toma a coisa pelo que ela é. Antes de ser adjacente a características e critérios criados por teorias, opiniões ou argumentos, correntes filosóficas, ideologias, ou o que quer que seja, a coisa tem a sua natureza intrínseca e inexpugnável e é sempre a partir daí, de maneira simples e didática, que ele começa.

A competitividade da firma, por exemplo, depende de uma tríade sistêmica que envolve: 1. sua própria competência; 2.condições econômicas; 3.entorno favorável. E essas condições impactam de maneira diferente cada uma das firmas. E mais além, ele constata que processos humanos, seja uma pessoa, uma firma, uma organização, uma comunidade,  ou um grupo social inteiro podem passar pela mesma via de desenvolvimento.

Para Monir, Mondragón, Emília-Romana, Jacksonville, os clusters dentro da perspectiva do Michael Porter ou a região de Heidelberg na Alemanha são categorias do que ele chama de comunidades de desenvolvimento, seja de competição, de talentos, locais ou de aprendizado. Comunidade de desenvolvimento pode ser tanto uma empresa quanto um território. Para ele, competitividade está intrinsecamente relacionado à semântica exercida dentro da comunidade de desenvolvimento, que ele define como um agrupamento de indivíduos que têm forte identidade local, um núcleo duro capaz vislumbrar objetivo comum com
oportunidade, à qual (interessante!) nenhum processo de globalização é capaz de impor-se unilateralmente, quando a comunidade cria uma inteligência própria, ela se adapta e se beneficia do que a globalização tem de bom, mas ela permanecerá inexpugnável!

A autocrítica de Monir lhe permite raros exemplos nacionais: “O maior exemplo de sucesso econômico brasileiro na economia globalizada é o avião brasileiro, resultado da interação do talento dos engenheiros do ITA, da capacidade de pesquisa do CTA do Ministério da Aeronáutica e da competência da gestão privada da Embraer.” Quando tudo começou, lá estava o nosso patrono, Sr. Ozires Silva a comandar a interação dos militares brasileiros com os melhores engenheiros aeronáuticos americanos e brasileiros!

Monir acredita em mais Embraeres para o Brasil!

Refletindo sobre isso, e tendo em mente a construção do conhecimento desde David Ricardo, Schumpeter, Penrose, o problema dos critérios de competitividade da firma envolve mais do que uma combinação de imaginação, de “bom senso” na gestão, de autoconfiança e de qualidades pessoais do empreendedor. Este problema vincula-se tanto às “expectativas” da firma, quanto à maneira que interpreta o seu “entorno”, em função de recursos tangíveis e intangíveis, internos e externos. É por isso que a institucionalidade não deve ser considerada como recurso dado, ela pode ser desenhada pela firma por meio de processos compensatórios de suas interações repetidas que fazem gerar, ou não, um espectro favorável ao florescimento dos talentos, ao crescimento e das comunidades de desenvolvimento.

Economia globalizada e a deflação construtiva

Mais atual do que nunca, pois trata de observações fundamentais, o livro também traz as diferenças entre a economia fechada e a economia globalizada na qual as empresas têm dois grandes desafios que se confundem com duas grandes oportunidades: a forte concorrência e o peso do mercado.
Monir chama a atenção à queda das fronteiras e a dispersão das tecnologias que reduzem as distâncias e o poder do mercado que vem do poder crescente de consumidores mais bem informados que obrigam as firmas a elevar a qualidade e baixar os preços, ou seja, o fenômeno de deflação construtiva (para diferenciá-lo da deflação destrutiva de 1929), porque o consumidor se beneficia sob a forma de preços mais baixos e de maior qualidade. Entretanto, diz Monir, essa mesma deflação construtiva é responsável por distúrbios no mercado de trabalho criados pela economia de custo que universaliza a automação, buscam fusões ou transferem sua produção para locais com custos menores.

O Mundo do Mais e o Mundo do Menos

Mas os conceitos centrais do livro envolvem o que autor diferencia entre o Mundo do Mais e o Mundo do Menos.

Baseando-se em elevados sentidos aristotélicos, Monir parte da hipótese de que o sentido da vida humana se realiza por amor à excelência, o agathon, ou seja, uma força vital que move qualquer processo humano. É o que o inspira a desenvolver o conceito do Mundo do Mais: “Santo Agostinho perguntado por que encomendara sapatos de um ateu, teria dito que o propósito do sapateiro é fazer bons sapatos, eis a razão do Mundo do Mais”. A lógica do Mundo do Menos é produzir quaisquer sapatos, de modo que dê menos trabalho possível, mesmo que comprometa a qualidade, ou seja, a procura da excelência substituída pela obsessão do menor esforço.

Pessoas, firmas, organizações, comunidades do Mundo do Mais “se comprometem com a qualidade, com produzir valor para os outros e para si próprio e usufrui deste aprendizado em forma de prosperidade e qualidade de vida”. Enquanto o Mundo do Menos, hipnotizados pelo menor esforço,  propõe sempre menos: menos valor, menos salário, menos qualidade, “irremediavelmente preso à própria armadilha, quanto mais procura abaixar o custo mais o valor vai embora, mais os talentos desertam e mais a pobreza impera.”

Monir descreve com presteza as experiências de Jacksonville e como indicadores de qualidade serviram para melhorar o debate, criar uma agenda limpa fazer com que a comunidade percebesse que as coisas estão interligadas, mais qualidade de vida, mais prosperidade (e o inverso). Ele demonstra, por exemplo, como os negócios do Mundo do Mais dependem mais das condições comunitárias e das interações desenvolvidas, ao constatar o que levou e os desafios de Mohammed Yunus para fundar o banco de microcrédito Grameen descritos magnificamente no livro. E por aí vai mostrando em toda a obra como os negócios do Menos têm base dependente de condições econômicas e como os negócios do Mundo do Mais convocam entusiasmadamente todas as fontes de valor possíveis: cientistas, artistas, bons profissionais, talentos, novas tecnologias; e aumenta o valor das coisas, serviços e processos, tornando a todos mais produtivos.

Palavras finais pela Talentópolis

Monir chamava muito a atenção para o que ele chamava de "projeto civilizatório Brasil". Bastante autocrítico, jamais tampava o sol com qualquer peneira! O capítulo sobre a Talentópolis ressalta bem isso levando o brasileiro a fazer um exame de consciência sobre o “savoir vivre da alma brasileira” e seu “belíssimo pragmatismo às avessas”. É extraordinário.

Por outro lado, enobrece empreendimentos brasileiros fantásticos e de como os brasileiros podem ser insuperáveis quando conseguem fazer com que sua criatividade combinada com inteligência funcionem melhor em grupo. Ele mostra inúmeros exemplos de como o Brasil se supera. O Brasil que deu certo para o Monir é o país que tropicalizou a soja, que a produz de norte a sul do país, obra do Programa Brasileiro de Melhoramento da Soja, iniciado em 1964. Ou como a Estação Experimental de Trigo de Bagé desenvolveu nosso trigo; o desenvolvimento da tecnologia de barragens de concreto por Itaipu; os ganhos do Brasil com a indústria aeronáutica e a Embraer; a tecnologia do álcool carburante; como se tornou maior produtor de frango do mundo; ou como significativo produtos de papel e celulose; a melhor tecnologia do mundo para extração de petróleo de águas profundas; como o Brasil detém todo o ciclo de enriquecimento de urânio; o primeiro transplante de coração....

Economia do Mais é um livro único. E o único livro que eu conheço que justifica a escolha de seu formato, trazendo uma “Advertência à Academia”. É para libertar “propositadamente o autor de diversos constrangimentos inférteis: a rigidez acadêmica, a diarreia bibliográfica, a tirania da padronização científica e a praga das notas de rodapé.” E nos convida a “ quebrar o marasmo e a seguir viagem...”

Uma viagem que conduz o leitor a compreender gradualmente nossas fortalezas e fraquezas, sem máscaras do politicamente correto. E constata, como parte da nossa natureza, princípios do Mundo do Mais e do Mundo do Menos convivem simultaneamente em nossas mentes. Entretanto, nutre-se sempre por uma esperança de que existe uma única ética empresarial possível capaz de amalgamar a todos nós, quando a ampliamos essa compreensão para outros setores da nossa vida: é o sapateiro fazendo bons sapatos!



Patrizia Bittencourt Pereira, Linguista, mestre em Desenvolvimento Econômico pela UFPR. Trabalha no Sistema Federação das Indústrias do Estado do Paraná (FIEP) desde 2005 e há 3 anos integrou a equipe do Centro Internacional de Formação de Atores Locais para a América Latina (CIFAL), um programa do Serviço Social da Indústria (SESI) em parceria com o Instituto das Nações Unidas para Treinamento e Pesquisa (UNITAR/ONU), onde se dedica a projetos de treinamento avançado em Gestão Urbana e Urbanização Sustentável para gestores públicos da América Latina. Desde 2010, dedica-se ao estudo e pesquisa sobre Economia Criativa, território; novos padrões, modelos de negócios e interações criativas. Colabora e é membro da Cátedra Ozires Silva de Empreendedorismo do Instituto Superior de Administração e Economia ISAE/FGV; Rede de Economia Criativa do Paraná (REDEC) e Rede Crie Futuros.


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