(Foto by Kirst Kelly - extraído de
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Senso comum é uma noção ambígua. Podemos entendê-la como um
conhecimento que é comum e compartilhado por todos, e por isso, constitui a
noção mais generalizada de nossas crenças e valores.
Mas também podemos entendê-la como uma falta, algo que carece de profundidade e validade. Neste sentido uma opinião pode ser desmerecida por se tratar exclusivamente de senso comum, algo que seria falado aos quatro cantos, mas que não possui bases sólidas para um julgamento assertivo.
Nesse sentido é que pesa a crítica de consultores
especializados em estratégia de negócios. Criticam a vertente da criação
colaborativa por esta partir do senso comum, do conhecimento ou da capacidade
criativa de pessoas comuns, concluindo daí, que por se tratar do que é comum,
nada de especialmente novo poderia surgir.
Talvez daí a necessidade de que mais e mais os especialistas,
necessitem criar novos rótulos para si mesmos. Quando o público em geral já
entende um rótulo, já está na hora de se criar uma nova área, mais inacessível
que a anterior, para a valorização dos seus papéis como sistematizadores.
Afinal, quem propõe algo é porque deve ter razões ou métodos
para tal, certo?
Mas raramente escuto executivos, dizerem que alguma
proposição os surpreendeu pela originalidade e ineditismo.
Os consultores saem na defensiva, em geral se colocam
distanciados numa atitude blasé, como se nada os tirassem de seus
eixos, conquistado às duras penas.
Na prática as propostas que acabam vingando são decorrentes
de desdobramentos de direcionamentos maiores, normalmente de ordem estratégica,
definidas nos escalões superiores.
Nesse sentido, como estão enredados naquilo que conhecem,
caberia a este grupo apenas validar ideias geradas por especialistas, pois
estes têm condições de justificar as propostas geradas.
Aceitamos isso, sem pensar, como se tivéssemos frente a
frente a algum tipo de mecanismo que funciona misteriosamente, sem termos
condições de identificar exatamente o que se passa.
Desta forma a cocriação foi ganhando a conotação de um
processo de validação de ideias junto aos clientes, assim como é feito através
de pesquisas de mercado, mas com protótipos ou algum nível de concretização
maior, conferindo ao processo uma apreciação mais objetiva.
A noção acima, também convive com outra ideia de senso comum,
que é a dos funcionários de fato terem mais contato com os problemas diários da
organização. Nesse sentido, dever-se-ia considerar que os mesmos em relação com
os demais stakeholders são a própria constituição viva e
presente do ecossistema em que a organização está inserida.
Entretanto, essa noção não é suficientemente forte para que
se aposte e valorize verdadeiramente na capacidade dos que estão “fora” da
organização, considerando aí os clientes e demais stakeholders externos
à empresa.
Se a um só tempo precisamos contar com os saberes dos
funcionários, clientes e demais stakeholders, pois são esses que realmente
possuem o entendimento do que é comum nas suas respectivas perspectivas, porque
não contar também com sua capacidade imaginativa mais livre, menos enviesada?
Acredito que isso se dê porque valorizamos acima de tudo os
saberes técnicos e específicos provenientes da especialização. Quanto mais
sairmos do rol de possibilidades e soluções provenientes destes saberes, tanto
menor será o valor conferido as propostas.
Entretanto gostaria de trazer uma ideia que também vai contra
o senso comum, nesse caso do que está estabelecido pelas boutiques consultivas.
Justamente por não respeitar os formalismos que as diferentes
áreas do conhecimento apresentam é que é possível partir para um processo
criativo mais aberto e menos pautado por considerações preliminares do que seja
certo ou errado em relação a uma questão.
Ford pensava em minimizar os esforços no manuseio de máquinas
e equipamentos em sua fazenda, ainda na infância, pela interação inusitada e
coordenada de trabalhadores e máquinas. Na idade adulta essa ideia avançou para
o sistema de produção em massa. Entretanto Ford nunca teve uma educação formal.
Não enquanto gestor.
O que se perderia em termos de profundidade técnica das
soluções, num primeiro momento, ganharia em possibilidades imaginativas, ao
rastrearmos os dramas humanos presentes na nossa vida cotidiana, além de
podermos conferir um grau maior de humanização nas soluções geradas.
Explico-me.
As pessoas amparadas pelo senso comum trazem consigo, também,
seus ricos universos imaginativos, permitindo uma amplitude maior de
interpretações, sentimentos e percepções, base para a geração de ideias, pois
passam a multiplicar o seu saber, considerando as questões que as atingem
diretamente.
Se conseguíssemos reverter em ideias o universo que cada
pessoa traz consigo, suas experiências, noções de mundo, suas interpretações
singulares e repletas de novos significados, teremos condições de tocar as
questões no seu cerne gerador, que normalmente se associa as relações e dramas
humanos, dando um maior senso de valorização para a subjetividade, sem a qual a
criatividade não atinge seu mais alto grau de desenvolvimento.
O que ganhamos na ampliação da percepção dos problemas e no
surgimento de soluções mais diversificadas pelo trabalho colaborativo com os
nossos públicos alvos, compensará a falta de um embasamento mais técnico e
sofisticado, ao menos num primeiro momento, por termos a condição de partirmos
de ideias mais livres e desvinculadas de regras de perspectivação.
Não se trata claro de estabelecer uma dicotomia, entre
criação oriunda de experts versus a criação oriunda do senso
comum, pois precisamos compreender que os diferentes saberes possuem também
diferentes características e capacidades de respostas. Um mais orientado para
aquilo que é factível e outro mais orientado para o intuitivo.
Mas em termos de criação e geração de novos conceitos, quem
pode garantir o que é mais adequado, nesse terreno aberto onde o que realmente
importa é o desejo de criar livremente?
A cocriação que busca integrar os saberes de funcionários,
gestores, clientes e demais stakeholders num esforço de
criação conjunto, busca refletir e propor soluções a partir de percepções
comuns, que ao mesmo tempo se transformam em extraordinárias, por conferir
significado àquilo que está oculto.
Porém, é muito difícil imaginarmos qualquer tipo de solução
hoje sem considerarmos algum tipo de solução de caráter tecnológico,
considerando todas as suas questões e pormenores, donde o expert reafirma
o seu papel por conseguir traduzir em resultados práticos a necessidade de
concretização de boa parte das ideias.
A força imaginativa impulsionada pela percepção crescente de
novas possibilidades é a grande força do trabalho cocriado.
Mas o que é percebido como força, também pode ser entendido
como principal fraqueza, dependendo dos critérios utilizados.
Infelizmente, entendemos que para tudo na vida, exista algum
tipo de especialização requerida.
A ideia de trabalharmos a partir do senso comum é que possui
um fundo bastante incomum.
Marcelo Alessandro Fernandes é Engenheiro de Produção pela UFSC. Pesquisador das áreas de Imaginação, Cognição Criativa e Psicodrama. Possui Mestrado em Inovação também pela UFSC e formação em Psicodrama e Sociodrama pela ABPS. É membro do Comitê Executivo da Cátedra Ozires Silva de Empreendedorismo e Inovação Sustentáveis. (e-mail de contato: marceloalessandro@gmail.com)
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